Estado Regiao

A cada três minutos, Paraná registra uma chamada pela vida

Por kazafm  ·  📅 2023-12-26 08:08:30  ·  👁 145 visitas
link
A cada três minutos, Paraná registra uma chamada pela vida

O telefone até pode tocar algumas vezes, mas ainda assim há a certeza que do outro lado alguém atenderá, independente do horário. É que no Centro de Valorização da Vida (CCV) o plantão é 24 horas — afinal, nunca se sabe quando alguém pode precisar de um ombro amigo, de um bom ouvinte para desabafar. E nos últimos tempos, ter essa abertura é algo que foi se tornando mais premente. Isso porque ao longo da última década não só o Paraná, mas o Brasil viu a questão do suicídio ganhar evidência.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, extraídos do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), o número de mortes por lesões autoprovocadas intencionalmente teve um salto de 48,2% nos últimos 10 anos no país, passando de 10.533 ocorrências em 2013 para 15.609 em 2022. No Paraná, esse salto foi ainda mais expressivo (+58,6%), com o número de suicídios subindo de 655 num ano para 1.039 no último período com dados disponíveis.

Para fazer frente a esse cenário e prevenir casos de suicídio, o CVV oferece atendimento pelo telefone 188 (24 horas e sem custo de ligação), por chat, e-mail e pessoalmente. Qualquer pessoa que precise de um apoio emocional pode entrar em contato, sendo que só nos últimos três anos (entre janeiro de 2021 e janeiro de 2023) o CVV realizou um total de 421.572 atendimentos no Paraná. Isso dá uma média de um atendimento a cada três minutos, em média.

“As pessoas falam sobre seus sentimentos, sobre suas emoções. Os assuntos abordados pelas pessoas que buscam o CVV são os mais diversos, mas muitas pessoas abordam solidão, algum tipo de perda (saúde, alguém próximo, trabalho, bens, etc), depressão, problemas sentimentais, ou outros que de alguma maneira precisam ser compartilhados com alguém”, explica a voluntária Claudiane Araújo, porta-voz do CVV Curitiba.

O período que marca o final de um ano e começo do outro, inclusive, costuma ser um dos mais movimentados nas centrais de atendimento do CVV. “O fim do ano é um momento de felicidade para muitos, mas apreensões, arrependimentos, lembranças tristes e angústias para outros. Tem muita gente que liga para agradecer a existência do CVV, desejar um bom ano para nós, dizer que são gratos por algum motivo. Por outro lado, também tem muita gente ansiosa, desesperada, na solidão”, comenta Claudiane.

Para dar conta da demanda, o serviço conta com uma rede de voluntários treinados para atender aqueles que precisam de um ombro amigo, de um bom ouvinte. A quem interessar, para ser voluntário do CVV, independentemente da forma de atendimento, é necessário ter mais de 18 anos e participar de um curso gratuito, realizado presencialmente ou pela internet. As inscrições podem ser feitas pelo site cvv.org.br, na seção “Voluntários”, e o treinamento dura aproximadamente três meses, com encontros semanais.

“O voluntário realiza plantões de 4 horas semanalmente em um posto de atendimento ou via internet. Durante seu plantão o voluntário fica disponível para conversar com quem busca o CVV de forma sigilosa, com compreensão, respeito e atenção”, explica ainda a porta-voz do Centro.

Fatores de risco e a importância de se falar sobre o problema

O suicídio é um problema que se pode prevenir em boa parte das vezes. Nesse sentido, o estudo e a discussão do tema são as formas mais eficientes de se promover a prevenção, aponta o CVV, que desde sua criação assumiu como tarefa estimular essa discussão e, consequentemente, prevenir o suicídio, que já é a a quarta causa de morte mais recorrente entre jovens de 15 a 29 anos, atrás de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal.

O Conselho Federal de Medicina (CFM), por sua vez, também ressalta a importância de se reconhecer fatores de risco para o suicídio. Entre eles estão tentativas prévias de suicídio (considerado o fator preditivo isolado mais importante) e doença mental (quase todos os suicidas têm uma doença mental, muitas vezes não diagnosticada, frequentemente não tratada ou não tratada de forma adequada). Os transtornos psiquiátricos mais comuns incluem depressão, transtorno bipolar, alcoolismo e abuso/dependência de outras drogas e transtornos de personalidade e esquizofrenia, sendo que o risco aumenta caso o paciente apresente múltiplas comorbidades psiquiátricas.

Além disso, outros fatores de risco conhecidos são a desesperança, desespero, desamparo e impulsividade, a idade (o suicídio entre jovens vem aumentando em todo o mundo nas últimas décadas e apresenta índice eluvado entre idosos devido a fatores como perda de parentes, enfermidades degenerativas e solidão), doenças clínicas não psiquiátricas (as taxas de suicídio são maiores em pacientes com câncer, HIV, doenças neurológicas, doenças cardiovasculares, doenças crônicas etc), eventos adversos na infância (maus tratos, abuso físico e sexual, transtorno psiquiátrico familiar) e fatores sociais.

Demanda por atendimento volta ao normal após a pandemia

No auge da pandemia, as ligações para o CVV através do telefone 188 dispararam. Em 2021, por exemplo, foram realizados 192.843 atendimentos. No ano seguinte, o número já recuou para 136.424. E em 2023, até setembro, houve 92.305 registros. Segundo Claudiane Araújo, isso ocorreu porque a sociedade voltou ao ritmo de 2020, no período de pré-pandemia, e o CVV não foge a esse padrão.

“No período mais intenso da pandemia, por exemplo, as pessoas conversavam sobre o medo, o distanciamento, a frustração, a solidão. Mas também falaram de esperança, da confiança de que tudo iria passar. Em cada momento em que há impacto emocional coletivo na sociedade, isso se reflete nos atendimentos”, aponta a porta-voz.

💬 Deixe um comentário