Os dois tornados registrados no Paraná em menos de 12 horas, nesta quarta (9) e quinta (10), que atingiram os municípios de Francisco Alves, na região Noroeste, e Espigão Alto do Iguaçu, na Centro-Sul, também deixaram um rastro de destruição para os produtores rurais.
Diante de novos estragos no meio rural, o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, reforça o pedido de ações preventivas e de políticas públicas voltadas às famílias rurais atingidas. “Os relatos impressionam. Foram lavouras destruídas ainda na germinação, galpões e barracões derrubados, confinamentos de gado atingidos, casas destelhadas. É preciso, de forma urgente, que o poder público viabiliza ações que permitam a recuperação das áreas atingidas e a retomada das atividades”, aponta Meneguette. “Nossos supervisores e sindicatos rurais já estão atuando nas regiões, verificando as primeiras necessidades dos produtores rurais para auxiliar nas necessidades mais urgentes”, complementa.
Para o dirigente, os episódios recentes reforçam a necessidade de avançar em políticas de proteção ao produtor rural, como a ampliação do acesso ao seguro rural, agilidade no reconhecimento de situação de emergência nos municípios atingidos e linhas de crédito para reconstrução de estruturas e reposição de insumos. Meneguette também pede atenção especial da Copel às áreas rurais atingidas. “Boa parte das propriedades atingidas em Espigão Alto do Iguaçu ainda está sem energia elétrica, o que compromete diretamente atividades como a produção de leite, a fabricação de ração e a conservação de alimentos. O restabelecimento nessas áreas rurais precisa ser tratado como prioridade, com o mesmo empenho dedicado às áreas urbanas, já que a interrupção prolongada agrava ainda mais o prejuízo desses produtores”, declara o presidente do Sistema FAEP.
Tornados: “A lavoura estava no início da germinação”
O primeiro tornado ocorreu por volta das 17 horas de quarta-feira (9), em uma área pequena. Apesar da curta duração, o fenômeno climático atingiu a propriedade de Ricardo Travasso Raimondi, que viu a saraivada destruir cerca de 60 hectares de soja que já despontava do solo. “Como plantamos cedo, a lavoura estava em início de germinação. Como caiu uma quantidade grande de pedra, quebrou o talinho das plantas que já estavam para fora”, relata. Ele ainda não conseguiu contabilizar o prejuízo com precisão porque a chuva não permitiu o acesso à lavoura. A área não era segurada. Raimondi ainda tem esperança de recuperar parte da lavoura com replantio, mas o custo de novos insumos deve ampliar o prejuízo. “Estou de mãos atadas”, resume.
O segundo tornado se formou por volta da 0h40 desta quinta (10), em Espigão Alto do Iguaçu. De acordo com Vanderlei Rohden, técnico do Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR-Paraná) no município, a região mais atingida foi a comunidade de Boa Vista de São Roque e arredores, onde muitas propriedades ainda seguem sem energia elétrica. “No primeiro giro pela área, passei por vinte casas atingidas, galpões destruídos, plantações de eucalipto derrubadas e confinamentos de gado atingidos. Em um desses confinamentos, o poste acabou caindo e matando um animal. Teve produtor que estava com a semente pronta para o plantio da soja, mas foi molhada”, afirma.
Barracão destruído com tornados
O produtor Márcio Furman foi surpreendido durante a madrugada. “Em poucos minutos, dois dos três barracões que tenho para guardar o maquinário foram destruídos. Minha casa foi toda destelhada, e a casa do meu pai, que fica próximo ali, uma árvore caiu e também provocou estragos”, conta. A residência dele tem seguro, mas os barracões, não. “Só para refazer o barracão vai uns R$ 30 mil, mas a chuva molhou tudo o que tinha: móveis, eletrodomésticos. É difícil você olhar para todo o estrago”, diz, acrescentando que muitos vizinhos também registraram estragos e que ainda estava sem energia elétrica na tarde desta quinta. Segundo dados da Copel, até as 15h desta quinta-feira (10), 10% do município de Espigão Alto do Iguaçu ainda estava sem fornecimento de energia.
O produtor de leite Meysson Vetorello teve a fábrica de ração de sua propriedade, de 400 metros quadrados, completamente destruída. “A cobertura voou longe, molhou o milho e o farelo de soja, e a força do vento chegou a retorcer a estrutura de pé direito. Só não caiu porque estava bem amarrada. Eu estimo um prejuízo entre R$ 100 mil e R$ 200 mil”, relata. A fábrica produzia cerca de cem toneladas de ração por mês para o rebanho leiteiro. Vetorello conta que, em outra propriedade sua, a 13 quilômetros dali, teve mais sorte, pois os insumos estavam armazenados e não molharam — diferentemente de vizinhos que já haviam recebido adubo e perderam tudo.
Já na propriedade do produtor Leandro Bonotto, a seis quilômetros da cidade, a lavoura de trigo se deitou com a força do vento e várias árvores foram derrubadas. “Não sei se vai recuperar. Se não se levantar, não vou conseguir colher. Aí o prejuízo será grande”, comenta.
Prejuízo também em Marechal Cândido Rondon
Além dos dois tornados, o Simepar registrou fortes tempestades em diversas regiões do Paraná ao longo da madrugada, com rajadas de vento intensas e queda de granizo pontual. Os maiores registros de vento foram em Marechal Cândido Rondon (112 km/h, medição do Inmet), Ubiratã (95 km/h) e Assis Chateaubriand (66,6 km/h). Os volumes de chuva também foram expressivos em vários municípios, com destaque para Campo Mourão (100 mm), Sengés (67,6 mm) e Jacarezinho (61,4 mm). Segundo o presidente do Sindicato Rural de Marechal Cândido Rondon, Edio Chapla, o vento também causou estragos no município. “O evento afetou principalmente os telhados de algumas granjas no interior do município. Porém, nosso maior prejuízo, agora, é o restabelecimento de energia elétrica”, comenta. O dirigente conta que os ventos fortes e chuva intensa provocaram danos nas redes de alta tensão. “Desde a madrugada temos relatos de produtores que ainda estão sem energia, ou com o fornecimento restabelecido de forma instável. Estamos aguardando que a Copel normalize o mais rápido possível, porque a energia é um insumo essencial para a nossa região, que tem grande produção de proteína animal e de leite. Isso tudo traz prejuízo para o produtor rural”, afirma.